Sobre Choques Culturais

Na comédia “Paris a Qualquer Preço” (“Paris à Tout Prix”, 2013), disponível na Amazon Prime, a atriz francesa Reem Kherici, de origem ítalo-tunisiana, representa uma jovem marroquina longamente radicada em Paris, onde incorporou todos os comportamentos da juventude liberal local. No entanto, até por já não se considerar estrangeira, ela descuida do próprio visto de residência e acaba deportada.

A graça do filme está justamente no choque cultural entre os seus hábitos e os dos seus conterrâneos, a começar por sua própria família. Nisso temos a tradicional trajetória de redescoberta e reconciliação. Diferentemente, porém, dos filmes similares em língua inglesa, a valorização da diferença não é um fim em si mesmo, mas tão somente um instrumento para o enriquecimento da vida em comum na França moderna.

Não se perde de vista a importância da fusão cultural e da construção de arcabouço simbólico compartilhado. Isso também aparece, p. ex., na comédia também francesa “Que Mal Eu Fiz a Deus?” (2014). Naturalmente, é uma característica da cultura francesa que vem sendo questionada por não poucos identitários, influenciados pela academia americana. Só me resta torcer para que estes últimos não prevaleçam, embora o seu messianismo aponte na direção contrária. Por ora, contento-me em me divertir com essas estranhezas a vencer barreiras por meio do afeto e do reconhecimento mútuo.

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Sobre o “Cabo Anselmo”

Assisti ao documentário “Em Busca do Cabo Anselmo” (2018), disponível na HBOMax. Muito bem feito, em especial os quatro primeiros episódios, que são mais informativos do que argumentativos. O último é mais engajado politicamente, contendo diversas especulações. A tese abraçada é que os agentes da repressão deveriam ser processados criminalmente. Subentende-se que isso deveria alcançar o próprio Anselmo. Juridicamente, trata-se de um argumento polêmico. De qualquer forma, é algo que deve perder o seu objeto brevemente. O próprio “Cabo” recém faleceu.

Quatro observações:

  1. achei curioso que um dos entrevistados sustentasse que o AI-5, decretado em dezembro de 1968, jogou a extrema esquerda na clandestinidade quando o próprio documentário mostrou que esta aderiu à luta armada já em 1966 (a tentativa de implantar um foco de guerrilha na Serra da Caparaó, p. ex.);
  2. considerei as análises de conjuntura do Anselmo melhores do que as dos demais entrevistados, egressos da luta armada; as dificuldades destes para avaliar a debilidade do projeto de levante armado no contexto brasileiro é muito revelador das limitações da capacidade reflexiva da esquerda revolucionária;
  3. Anselmo alegou que não concordava com o que viu em Cuba; no entanto, o documentário não o questionou a esse respeito, o que poderia auxiliar no entendimento das suas motivações, reais ou imaginárias;
  4. com frequência, os integrantes da luta armada foram retratados como jovens românticos e inexperientes, até mesmo como pessoas “boas”, o que me fez lembrar do personagem “Strelnikov“, da obra “Doutor Jivago” (1957), e da sua transmutação ao longo do processo revolucionário.

O mais interessante é que, ao explorar as várias versões em torno da trajetória e da personalidade de Anselmo, o documentário, sem deixar de ser instrutivo, consegue suscitar ainda mais dúvidas sobre quem ele realmente foi – dúvidas agora eternizadas.

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O Episódio Piloto de “Blackadder”

Photo by Don Smith/Radio Times

Blackadder foi uma série cômica britânica dos anos oitenta, estrelada por Rowan Atkinson, mais conhecido entre nós como “Mr. Bean“. A série teve quatro temporadas entre 1983 e 1989, cada qual ambientada em um período histórico diferente: no pós-Guerra das Rosas, no período Elisabetano, no final da Era Georgiana e na 1ª Guerra Mundial.

Na primeira temporada, Blackadder é um personagem apatetado, frequentemente salvo pelo bom senso do seu serviçal, Baldrick. Nas três seguintes, após quase terem sido canceladas, Blackadder surge como uma figura ardilosa e cínica, enquanto Baldrick é reduzido a um tonto iletrado. E assim se fez história!

Curiosamente, no episódio piloto, produzido em 1982 e jamais televisionado, o protagonista já possuía as características que iriam consagrá-lo. No ano seguinte, optaram por algo mais próximo do já citado “Mr. Bean” e quase inviabilizaram a continuidade do projeto. Sorte nossa que houve tempo para que a ideia original fosse retomada.

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Sobre Âncoras Fiscais

Saímos da Constituinte com uma política fiscal ancorada na reserva de iniciativa do Presidente para propor a LDO e a LOA. Não deu certo. As reestimativas das receitas pelo Congresso em casos de erro ou omissão mostraram-se muito mais elásticas do que se imaginava. Ficou quase impossível qualquer ajuste pelo lado da despesa. Resultado: financiamento inflacionário, seguido de aumento da carga tributária.

Evoluímos para o estabelecimento de limites por meio de leis complementares (Leis Camata, de maneira parcial, e LRF, de modo estrutural). Também não funcionou. O quórum requerido para novas burlas (maioria absoluta das duas Casa), o viés garantidor de direitos abstratos da nossa Justiça e a ação estratégica do próprio Tesouro, invocando ou não a norma conforme as conveniências dos seus gestores, acabaram degradando os limites estipulados. Resultado: mais aumento da carga tributária, seguido de endividamento acelerado.

Introduzimos então limites para a geração de gastos públicos na própria Constituição. Agora vai!, pensou-se na época. Afinal, não é todo dia que se consegue o apoio de 3/5 das duas Casas em duas votações para se gerar novos gastos sem a contrapartida de cortes em outros. Ledo engano! O novo arranjo durou pouco. Com efeito, ao primeiro sinal de que os rigores dos limites fixados se fariam sentir, os citados limites foram ampliados oportunisticamente. Nesse contexto, não surpreende que outras tantas burlas estejam sendo implementadas em tempo recorde. Resultado: repique inflacionário e cenário incerto sobre a capacidade de endividamento da União.

Da reserva de iniciativa às leis complementares e às emendas constitucionais: nada parece ter dado certo. Acho que só nos resta apelar para o Papa. … Ah! Esqueci que o Papa é argentino.

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Meu Cenário para 2023

A inflação inesperada gerou algum espaço fiscal. Isso, porém, não funciona de maneira recorrente. Neste caso, o que era “inesperado” se torna “esperado”, antecipável, planejável pelos agentes econômicos. Pior, o espaço criado está sendo desperdiçado com políticas eleitoreiras.

Entraremos 2023 com inflação acima da meta, com contas desajustadas há nove anos, com o teto de gastos desacreditado, pois ficou claro que seu status constitucional não impede burlas populistas ou corporativas, e com um novo governo determinado a adotar políticas “anticíclicas”, possivelmente apostando na continuidade do “maná” inflacionário, à revelia da lição inicial.

Em 2003, Lula deparou-se com um arranjo macroeconômico robusto. Era vantajoso aprofundá-lo, ao menos temporariamente. Nós não teremos a mesma sorte desta feita.

A desorganização macroeconômica abre as portas para todo tipo de experimentação, mesmo que isso implique incorrer nos mesmos erros de um passado ainda recente. Via de regra, quanto mais os economistas heterodoxos inventam, pior ficamos.

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Humor nos Anos 1980

Este ano marca o 40º aniversário do lançamento do derradeiro filme do comediante Louis de Funès, que morreu precocemente no ano seguinte com 69 anos. No filme “Le Gendarme et les Gendarmettes“, ele encarnou pela sexta vez o policial fardado Ludovic Cruchot, personagem criado em 1964.

As caretas e correrias tradicionais não podiam faltar, mas neste ele tentou, pela primeira vez, fazer humor com temas relacionados com sexo e raça. Não posso dizer que as piadas tenham envelhecido bem.

Fosse em língua inglesa, o filme provavelmente viria com os já costumeiros alertas sobre a presença de estereótipos ofensivos. No entanto, justamente por isso vale como uma espécie de arqueologia da transformação das nossas suscetibilidades em tão pouco tempo.

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Buenos Aires e Hollywood

Rita Hayworth

A prova definitiva de que Buenos Aires era “a” cidade nos anos quarenta: ela foi agraciada não só com “Gilda Mudson” em 1946, mas também com “Maria Acuña” em 1942. Caras de sorte os personagens de Glenn Ford e Fred Astaire.

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Allen versus Nixon

Em 1971, Woody Allen dirigiu e estrelou o curta-metragem “Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story“, parodiando o Governo Nixon. O mockumentary deveria ter sido exibido em fevereiro de 1972, mas o canal PBS, mantido com fundos públicos, decidiu engavetá-lo no último momento por temer represálias. O curta ficou relegado a cineclubes. Mais recentemente, ele passou a ser encontrado na Internet.

O mais fascinante é como aspectos que iriam desaguar no escândalo de Watergate (1972-74), como o desapreço pela ordem legal e um certo clima de gangsterismo, já aparecem no filme. A estrutura narrativa também serviu com template para o sensacional “Zelig” (1983).

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Casais Trágicos

Façam a sua escolha: Burt Lancaster + Ava Gardner x John Cassavetes + Angie Dickinson. Duas versões com tramas similares, ambas baseadas em um conto de Ernest Hemingway, mas com diferenças importantes: “Os Assassinos” (“The Killers“, 1946) x “Os Assassinos” (“The Killers“, 1964).

Em ambos, uma femme fatale inescrutável, um wiseguy arrebatado e um final trágico. Pessoalmente, considero a trama do segundo superior, centrada nos próprios assassinos (personificados por Lee Marvin e Clu Gulager), mas não tenho como negar que o magnetismo do primeiro par é imbatível.

Em um mundo ideal, optaria por uma fusão das duas produções, combinando o que cada uma tem de melhor.

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“Apocalypsis Redi”

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