Sobre a Série “O Homem do Castelo Alto”

Assisti à adaptação da Amazon do clássico “O Homem do Castelo Alto” (“The Man in the High Castle”, 1962), de Philip K. Dick. Com quarenta episódios, a série se estendeu de 2015 a 2019. Naturalmente, ela vai bem além da trama original, mas sem deixar de incorporar várias cenas-chave do livro, como a morte de Joe pelas mãos de Juliana.

A série ganha dramaticidade à medida que avança. A 4ª e última temporada é muito impactante. É quando a extensão do genocídio praticado na Costa Leste contra as minorias é retratada com cores muito vivas. O silêncio e a cumplicidade do restante da população são bastante perturbadores. Na Costa Oeste, por sua vez, há a violência revolucionária de um movimento negro ultra aguerrido, ativamente apoiado pela China comunista, já perto de expulsar os invasores japoneses. A cena na qual os líderes da revolução rejeitam qualquer vínculo com o legado dos EUA pré-derrota é uma das mais marcantes. É a vitória da narrativa woke, com o mito da excepcionalidade americana sendo descartado sumariamente.

No livro, os universos paralelos são apenas intuídos, sendo que a realidade observada sequer é a correta. Na série, os personagens transitam pelo multiverso e as interferências se multiplicam. Outra cena forte é o paralelismo entre o programa nazista de eutanásia do universo alternativo e o alistamento militar para a Guerra do Vietnam da nossa linha temporal. É impressionante o quanto a sociedade americana avançou no processo de desconstrução da sua própria história.

No final, o regime nazista da Costa Leste entra em colapso e o seu território é inundado por egressos, especialmente minorias, de outros universos. De novo, nada mais condizente com a perspectiva woke. A reposição das minorias exterminadas funciona quase como um imperativo ético. No entanto, isso não deixa de ser coerente com o livro. Afinal, o próprio Philip K. Dick não tinha uma visão idealizada dos EUA. Tanto foi assim que a potência dominante do universo correto imaginado por ele era o Reino Unido.

Aqui há um contraste interessante com outra adaptação woke de uma história consagrada. Em 2020, a HBO levou Watchmen há um beco sem saída narrativo, pois não há nada mais desinteressante, do ponto de vista dramático, do que uma entidade onipotente e onisciente engajada na luta contra todas as injustiças. Exemplo: “Super, aqui temos mais um problema. Ops! Correção. Aqui temos menos um problema”. Fim da trama. A Amazon, deliberadamente ou não, manteve aberto um amplo leque de possibilidades e elas continuarão a brincar com a nossa imaginação.

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Sobre Custos Públicos de Transação

Fonte: https://www.gocomics.com/nonsequitur/2010/09/02/.

“Economic Growth, Inequality and Crony Capitalism: The Case of Brazil” (2021) é outro livro recente sobre a economia política brasileira. Também muito caro, limitei-me a ler a sua introdução, disponibilizada pela Amazon gratuitamente. Aparentemente, ele tem tudo para ser um marco na área. Além de uma análise inovadora e sofisticada, o autor testa as suas hipóteses centrais por meio de estudos de caso baseados no nosso sistema tributário, na indústria farmacêutica e na agropecuária. Seguem oito passagens que, a meu ver, resumem os argumentos do autor:

High costs of doing business provide politicians with power resources to manipulate transaction costs by using discretionary regulation, rules and policies. They can switch transaction costs on and off at targeted firms in the business sector. A small group within the business community, the insiders, colludes with government agents to access the loopholes that decrease the cost of doing business, thus gaining a competitive edge over the outsiders, those who cannot access the government. While politicians have all the short-term incentives to thwart reforms and cling to these power resources, the business insiders have weak preferences for reforms that could make the market economy accessible to all because that would imply they are losing their competitive edge. In such an equilibrium, it is unlikely that reforms that could decrease the cost of doing business could be achieved.

This book looks at an element other than secure property rights and government interventions to provide a better account of [any outsider]’s predicament. This element also generalizes into an explanation of long-term prosperity that is at least as important (…): state-imposed transaction costs. This element has been either misconceptualized or overlooked by both sides in the debate. While proponents of government interventions have underestimated the impact of these policies on economy-wide transaction costs, the proponents of secure property rights have conflated it (property rights) with state imposed transaction costs.

A healthy business environment with low transaction costs is a public good and there are collective action dilemmas blocking its provision. These dilemmas derive from strategic interactions between subsets of political agents and businesses. They do not have enough incentives to change their behavior towards the provision of this public good.

As long as politicians have discretionary power to reduce transaction costs for well-connected businesses and those businesses gain a competitive edge from this, both actors have no reason to deviate from this symbiotic relationship. The whole economic system becomes stranded in a low-level equilibrium of high transaction costs that harm long-term prosperity.

There is a fundamental gap in the NIE [new institutional economics] synthesis. For these [current], transaction costs, property rights and economic growth are connected through the uncertainty about losing one’s investment due to high costs of enforcing property rights or contracts. I contend, alternatively, that the transmission channel through which high transaction costs harm prosperity is a different, simpler and yet more pervasive one. Rather than the uncertainty of property rights and the risk of expropriation, high transaction costs imply a sheer waste of entrepreneurial time and capital. These costs dissuade investments not because there is a perceived risk of expropriation of the fruits of this investment, but rather because they divert the allocation of physical and human capital away from productive activities because most of the output will be wasted on non-productive activities. The consequence of waste in non-productive activities is two-fold: first, the ratio of capital invested over output is decreased because a good part of capital ‘leaks out’; i.e., it is wasted on activities that have little or no value (rubberstamping, dealing with senseless procedures, negotiating with government officials and other activities that will become clear in the empirical investigation). Second, only the few who can bear the high transaction costs, or who have the right means to decrease them through privileged connections, will be able to invest time and capital in entrepreneurial activities. This reduces the pool of talent and capital that can actually be translated into productive investment and create growth and prosperity.

(…) a combination of pervasive state penetration in the economic realm, high transaction costs and discretionary power over these costs reinforces cronyism. The costly business environment becomes a power resource for political agents and well-connected businesses.

(…) the Weberian bureaucratic (…) actors [in Brazil] operate under an incentive structure that prompts them to maintain control over opportunities for profit, to focus on processes rather than economic efficiency and to be risk averse instead of result-oriented. The outcome is a state apparatus that is slow and unresponsive to stakeholders’ needs, driving up transaction costs.

Taxation rules evolve much more as a response to the material interest of groups pulling them in different directions, lacking minimal commitment to long-term functionality. The high complexity is path-dependent because different tax regimes create their own constituents and grant politicians and bureaucrats discretionary power which they then cling to. In sum, the short-term pursuit of self-interest by a fragmented business community and politicians created a byzantine tax system.

Concluindo, não posso deixar de comentar a preocupação do autor, no final da introdução, de se dissociar, de modo apressado, do que chama de “direita”, enquanto apela, mais demoradamente, ao que chama de “esquerda” para que esta inclua a temática “melhoria no ambiente de negócios” no seu programa. Ele chega a endossar, sem maior reflexão, os prognósticos do economista Thomas Piketty sobre a questão da desigualdade. Vejo nisso uma típica defesa preventiva da própria reputação. Bem, cada um sabe onde lhe aperta o calo. Questiono, contudo, a eficácia dessa estratégia. No final, arrisco, será no complexo FGV-RJ, Insper e PUC-RJ, entre outros, que seu livro será devorado, enquanto que o complexo UFRJ, UFU e Unicamp, entre outros, irá ignorá-lo solenemente.

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Sobre a Decadência do Desenvolvimentismo

Há algum tempo li uma resenha sobre o livro “Decadent Developmentalism. The Political Economy of Democratic Brazil” (2020). Tenho muito interesse nesse tema. No entanto, como se trata de um livro caro, espero que alguma biblioteca local o compre. Até já o recomendei. Enquanto isso, baixei a amostra grátis da Amazon, com a introdução e o início do primeiro capítulo. A parte inicial, que oferece uma visão geral do argumento do autor, é bem convincente. Posteriormente, o livro perde um pouco de tração, enveredando por uma detalhada revisão bibliográfica, mas nem sempre bem articulada e até mesmo com alguns anacronismos.* Quero crer que isso seja um problema pontual, mas precisarei ler o restante para poder opinar. Independentemente disso, reproduzo a seguir algumas passagens bastante impactantes. Vale a pena conferir:

Political scientists have long emphasized executive-legislative relations to the general neglect of the economy, focusing more on the process of governing than on its content or performance. This has given many social scientists an artificial and perhaps overly optimistic perspective of how well Brazilian politics could function or actually functions, suggesting that all that is needed is stronger leadership, or focused more on narrow measures of legislative production and executive control than on the broader content of this legislation, the murky processes that often produce it, the options that are foregone, or the lackluster long-term performance of the system.

(…) many of the economic and political institutions of the new democracy are regressive and inefficient; but more importantly, that complementarities across the political and economic spheres generate incentives that drive actors toward a suboptimal political and economic equilibrium that has become stable over time.

Brazil often seems to be ambling leisurely toward a grim future in which an unresponsive political system, an inefficient economic framework, the end of the demographic dividend, and a deeply unjust social structure conspire to rob Brazilian youth of their future.

The institutions of the Brazilian political economy drive toward a common equilibrium that is hard to break, not least because of institutional complementarities across five institutional arenas that jointly explain the country trajectory since 1985: the resilience of developmentalism as an idea with effects on both policy choices and institutions in the macroeconomic realm; the concentration and segmentation of firm life in the microeconomic realm, DHME [developmental hierarchical market economy]; the consensual politics inherent to the coalitional presidential system, which undermine the checks and balances that are frequently assumed to be central to presidential systems; the resulting weakness of the control mechanisms needed to effectively govern the developmental state; and an autonomous bureaucracy that is able to undertake reforms that ensure the developmental state continued viability but also contribute to its growth-constraining effect by reinforcing the incentive structures set in place by the other institutions.

(…) the president agenda-setting powers, cabinet powers, partisan powers, and budgetary authority help to ensure presidential dominance (…). But these formal powers do not clinch the support needed to ensure effective governance which, as a consequence, is often obtained through informal exchange. This pattern of political interaction leads to a suboptimal, inefficient equilibrium that drives up the cost of politics, dilutes the coherence of policy initiatives, requires costly side payments, and may diminish public support, by undercutting public confidence in the probity of policy deliberations. But there are many reasons it survives: it provides key interest groups with defenses against policy change, provides executives with support in a fissiparous party system, provides legislative incumbents with powerful resources for political survival, and enables incumbent firms to outcompete their potential rivals.

Five institutional spheres, in particular, help to determine the performance of Brazil economic system: the scale of the state, the monetary and financial regimes, patterns of state intervention in industry, the economy integration into the world system, and the wage-labor nexus. Several stylized facts about the political economy of Brazilian democracy emerge from the interaction between these spheres:
. The fiscal imperative generates incentives for politicians of all ideologies to employ what I term fiscally opaque instruments of economic policy (…).
. The combination of the fiscal imperative and fiscally opaque instruments contributes to the high cost of credit, and low levels of investment (…).
. (…) there has been a lasting proclivity toward the protection of domestic producers, at some cost to efficiency and consumers.
. Industrial policy (…) serves the purposes of government by providing fiscally opaque tools to meet the needs of domestic firms or guide them toward government objectives.
. (…) the burden of balancing the fiscal accounts has fallen disproportionately on the less well-off, through regressive taxes, weak social welfare, and high informality (…).
. (…) economic growth, by default, is a residual.
. (…) foreign direct investment often responds to incentives in ways that are similar to domestic capital, producing for the local market behind high protective barriers.

(…) the regulatory framework established to facilitate the privatization of a variety of firms in a number of sectors has been repurposed over time to serve as a tool of government control over the economy.

(*) O autor, p. ex., atribui à Lei de Responsabilidade Fiscal o status de emenda constitucional e inclui o Unibanco entre os atuais grandes bancos brasileiros.

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Sobre “As Bruxas de Eastwick”

A comédia “As Bruxas de Eastwick” (1987), baseado no livro homônimo de John Updike, é outro filme para rever. O jogo de poder e sedução entre Jack Nicholson, de um lado, e Susan Sarandon, Cher e Michelle Pfeiffer, de outro, lembram uma época, antes que as questões sobre gênero dominassem o debate público informado, na qual o embate entre os sexos era um dos eixos da nossa reflexão sobre o mundo.

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Sobre “Crepúsculo dos Deuses”

“Crepúsculo dos Deuses” (“Sunset Boulevard”, 1950), um dos melhores filmes de todos os tempos. Para ver e rever. Uma cena icônica é a partida de bridge com três ídolos do cinema mudo: Anna Nilsson, Buster Keaton e H. B. Warner. Na foto, os três conversam com os protagonistas Gloria Swanson, William Holden e Erich von Stroheim. Na trama, o personagem deste último chama os três primeiros, depreciativamente, de “bonecos de cera” (“waxworks”).

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Do Livro “Lições Amargas”

Não acho que “Lições Amargas: Uma História Provisória da Atualidade” (2021) esteja entre os melhores livros de Gustavo Franco. Ainda assim, contém algumas máximas insuperáveis. Cinco exemplos:

… a inflação (…) é uma solução verdadeiramente diabólica, pois substitui com vantagem tanto os impostos quanto o endividamento público: é um imposto sem ritos legislativos e uma dívida sem juros e que não precisa ser paga.

No conto “O Empréstimo”, Machado de Assis retrata os percalços de um personagem que possuía a “vocação da riqueza, mas sem a vocação do trabalho”. A resultante desses dois impulsos discrepantes era uma só: dívidas.

Brasília desenvolveu enorme habilidade para fazer acordos políticos que espetam a conta em quem não faz parte da conversa. Daí os “pactos sociais” de que resultam a tributação do ausente, sendo que o exemplo mais célebre era a própria inflação …

Depois de 1994 ficou claro que estávamos diante de um outro tipo de conflito distributivo, aquele onde a tributação recai sobre outro ausente, ainda mais vulnerável, as crianças. A dinâmica orçamentária é a mesma, só que o déficit, ou o rombo, para usar o termo técnico, é coberto por dívida, não mais com papel pintado.

No nosso pequeno mundo patrimonialista, abrir como fechar uma empresa é sempre uma graça concedida pelo governo. Uma dádiva do Imperador, um alvará para começar e uma anistia para fechar, esse o destino de quase todos os que se aventuram a empreender, desde Mauá.

Pelo lado negativo, dois erros merecem registro, um maior e um menor. O primeiro (p. 59) corresponde à descrição das áreas BI e BE no diagrama sobre as Leis da Estupidez. A relação entre os ganhos privados e as perdas coletivas está invertida. O segundo (p. 158) está na alusão à República “Atlântica” no lugar de “Pacífica”.

Nota: também publicado em Goodreads > https://www.goodreads.com/review/show/4051142735.

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Sobre Filmes Comerciais

De vez em quando somos brindados com algum filme mexicano de arte. Bem de vez em quando. Já os filmes estritamente comerciais costumam ficar longe dos nossos cinemas. Naturalmente, os distribuidores conhecem melhor do que ninguém a própria equação financeira. Isso também vale para outros países. No entanto, essa barreira tem sido relativizada pela TV a cabo, com seus catálogos monstruosos. Com isso tenho podido me debruçar sobre produções voltadas para o mercado doméstico do leste europeu, da Ásia e, agora, do México.

Recentemente, assisti ao “remake” de “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (“My Best Friend’s Wedding”, 1997). Trata-se da comédia “La Boda de Mi Mejor Amigo” (2019), cuja foto ilustra este post. Antes disso via as comédias românticas “Nosotros los Nobles” (2013) e “El Hubiera Sí Existe” (2019). Todos tecnicamente primorosos, visualmente agradáveis e preocupados unicamente em entreter, ainda que seus resultados sejam desiguais.

Em todos esses casos, são duas horas de diversão inconsequente. Nada que lembre os programas de reeducação tão comuns atualmente. Não deixa de ser um ato de coragem remar contra a corrente.

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Young & Old

Assisti à comédia “In Vino” (2017) na Amazon Prime. Moderadamente divertida. Sean Young é uma das protagonistas. Fazia tempo que não a via em um filme. Apesar dos seus vários percalços profissionais no pós-“Blade Runner” (1982), ela envelheceu bem. Muito da jovem de 23 anos persistia na senhora de 58. Não posso, porém, deixar passar a oportunidade de brincar com o nome dela. Acima, portanto, temos Sean Young e Sean Old. 😛

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Sobre Fugas

Em “Fuga do Século 23” (“Logan’s Run”, 1976), Logan 6 (Michael York) não para de correr. Na foto abaixo, temos Jessica 6 (Jenny Agutter) e Holly 13 (Farrah Fawcett). Vamos torcer para que ele esteja correndo na direção correta. 😉

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Sobre Tirar o Fôlego

Noto que houve uma época em que as costas desnudas da Natalie Wood bastavam para deixar a plateia (principalmente a ala masculina, mas não apenas) sem fôlego.

Na foto, cena do filme “Médica, Bonita e Solteira” (“Sex and the Single Girl”, 1964). Interessante o contraste entre os títulos em português e em inglês. Um tanto contrário a uma noção comum sobre qual seria o país mais pudico. Claro que estou me referindo a uma época há muito desaparecida.

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