Os Três Finais de “Brazil, o Filme”

Brazil

“Brazil, o Filme” (1985), de Terry Gilliam, é uma obra especialmente marcante. O enredo é tão opressivo, que o diretor se permite brincar com os espectadores, oferecendo-lhes três finais:

  • o romântico: a heroína tem o seu registro adulterado;
  • o heroico: o ministério é destruído; e
  • o trágico: o protagonista termina em estado catatônico.

Lembro da minha reação a cada final. No primeiro, senti um misto de alívio e de decepção, pois parecia que o filme não iria entregar o final prometido (“ufa!” e “humpf!” simultaneamente).

No segundo, vi-me torcendo por um final feliz com grande desvelo, a despeito do evidente absurdo da situação, justamente porque o filme caminhava para o final delineado ao longo da trama (“opa!”).

No último, o choque e a aceitação da mais absoluta distopia (“snif!”).

A meu ver, o diretor tentou o mesmo artifício em “Os Doze Macacos” (1995), apresentando em rápida sucessão três finais:

  • o romântico: os animais libertados;
  • o heroico: os dois protagonistas se imaginam vitoriosos; e
  • o trágico: o vírus liberado.

No entanto, até pela natureza mais distante da distopia concebida, o impacto não foi o mesmo. Ademais, seria preciso duvidar do próprio futuro sombrio laboriosamente construído nas duas horas anteriores, o que, a meu ver, já não era factível.

Advertisements
Posted in Cinema | Leave a comment

A Nova Década Perdida

PIB

Em 2015, eu me fiz a seguinte pergunta: corremos o risco de uma nova década perdida?

Como resposta, elaborei o gráfico anterior. Tomando o PIB per capita como medida de bem estar individual, temos que o pico deste ocorreu em 2013 (R$ 27.424,31, em valores de dezembro de 2014).

Considerando que o PIB cresceu 0,15% em 2014 e a população tem crescido em torno de 0,9% ao ano, e assumindo que o PIB iria diminuir 2% em 2015 e 0,5% em 2016, crescendo 1,5% na média dos anos seguintes, tínhamos que o PIB per capita cairia até 2017, recuperando-se lentamente depois disso, até voltar ao patamar de 2013 entre 2023 e 2024.

Tratava-se de cenário até mais otimista do que aquele que temos observado. Destaco a expectativa de uma baixa taxa média de crescimento econômico no período 2017-2024, resultado do quase esgotamento, por questões demográficas e socioeconômicas, de uma das principais fontes de crescimento econômico do passado recente – qual seja, a incorporação de trabalhadores ociosos –, combinado com nosso histórico de incrementos reduzidos na produtividade do trabalho.

Posted in Economia | Leave a comment

From Very Close, No One Is Normal

Christ

Nine years ago, I wrote this brief take on the performance of the Brazilian economy to an acquaintance living in London. It seems my fears were not unfounded.

On 24 June 2010, I was asked:

So how does it feel in booming Brazil, while the “developed world” has to tighten its belt?

On 26 June 2010, I wrote:

(…) well, I think I’m not intellectually or emotionally prepared to deal with this new situation. Please, understand that I did my undergraduate studies during the eighties (the lost decade, as we call it) and started working with Brazilian fiscal policies in the nineties (many institutional and economic reforms, but also several crises in the developing world and still low rates of growth). So, it’s difficult for me to really enjoy the present euphoria. I see menaces everywhere: Low saving rates, too many taxes, population still young but public expenditures with pensions as high as the OECD average, and, for the current Brazilian government, industrial policies similar to those implemented back in the seventies and a belief in the Phillips Curve unparalleled since the sixties. It happened before and I grew up coping with its final outcome.

Am I too harsh with my own country? Possibly. From a rationally point of view, I know that every nation has its own idiosyncratic problems. As Caetano Veloso, a Brazilian singer and permanent polemicist, once said, from very close, no one is normal (probably, Brazilian most important contribution to western philosophy), and it’s even truer when we think about entire countries. And China makes a huge difference, anyway. However, my fears won’t go away easily. Maybe after a few more years I’ll finally start believing it’s really sustainable.

Posted in Economia | Leave a comment

Sobre o Ensino de História

Charles

Nas minhas incursões como docente, percebi que os alunos, em média, retêm uma narrativa bastante particular sobre o passado. Além do mais, com a proliferação de “identidades”, tornei-me um crítico da própria noção de um ensino de história abrangente, até por ser inexequível.

História para mim, hoje, deveria ser um serviço on demand, conforme a particularidade do cliente ou da clientela. Descabido? O ensino de português, matemática e ciências envolve a internalização de um conjunto limitado de regras, que podem ser distribuídas ao longo do tempo conforme o seu grau de complexidade e o nível de especialização. O resultado são jovem aptos a usar parte dessas regras de maneira mais ou menos coerente.

A história é uma narrativa aberta. Qualquer “marco” envolve uma decisão arbitrária. Enquanto os programas de ensino serviram para construir uma identidade nacional, convencendo alsacianos e normandos de que eram franceses, isso até podia fazer sentido, embora o custo não fosse baixo (a 1ª Guerra Mundial, p. ex.). Autoridade reconhecida e decisão centralizada permitiam alinhavar uma fábula que ia de Carlos Magno a François Mitterrand.

Isso não é mais possível ou mesmo desejável. Mas isso não quer dizer que as pessoas estejam destituídas de pensamento histórico. Isso é algo que nos acompanha desde a estepe africana. A história oral cumpriu e cumpre esse papel desde tempos imemoriais. Para isso, bastam vozes com autoridade e ouvidos atentos. Isso acontece nas mais diversas instâncias. As escolas, contudo, têm pecado pela falta de ambos. E razões para isso não faltam.

Seria melhor reconhecer as limitações da abordagem tradicional e dar vez a outras formas de apreender a história. História é, sem dúvida, um campo fascinante, mas simplesmente entendo que deveria ser optativa. Esta, em suma, é a conclusão a que cheguei convivendo com jovens cuja retenção do ensino de história não vai além de um conjunto pouco coerente de frases feitas.

Posted in História | Leave a comment

As Leis da Lacração

1ª Lei2ª Lei3ª Lei

Posted in Política | Leave a comment

Resumo da Política Brasileira Recente

Atos(*) Solidez do suporte jurídico, moralidade da ação política e extensão do impacto econômico variam segundo o cenário.

Posted in Política | Leave a comment

On Krugman’s Sloppy Argument

Sartre

I have been reading Paul Krugman’s newsletter with interest the past few months. Provocative, but always sharp on topic. On June 4th, however, I was surprised by a very sloppy commentary about a recent meeting between Prof. Jordan Peterson and the highly controversial Prime Minister of Hungary, Viktor Órban. Krugman wrote:

People we are told are leading conservative intellectuals seem remarkably friendly with racist authoritarians. Funny how that happens.

The commentary points to the following report by the Hungarian news agency. I just couldn’t contain myself and sent the following reply:

I am a great admirer of your work as an economist and I have been following your newsletter with interest the past few months. / However, I would like to let you know how disappointed I am by your remarks about the meeting between Prof. Peterson and the Prime Minister of Hungary. I did not expect to find someone like you spreading a flagrant fallacy like ‘guilt by association’. Considering how figures like Che, Fidel and Chaves were very popular at some point in time, anyone could as easily state something like ‘People we are told are leading progressive intellectuals seem remarkably friendly with divisive authoritarians. Funny how that happens.’ Sartre and Beauvoir being lectured by Che (at least, it was made to seem so) is a good example. In spite of that, both French intellectuals still deserve to be evaluated on the merits of their reasoning, not by an isolated picture.

Posted in Política | Leave a comment