On “The Data Detective”

The book “The Data Detective: Ten Easy Rules to Make Sense of Statistics“, by Tim Harford, is well written. Mr. Harford presents his ideas straightforwardly. He himself provides a compelling summary of the ten rules. According to him, we should:

  1. learn to stop and notice our emotional reaction to a claim, rather than accepting or rejecting it because of how it makes us feel;
  2. look for ways to combine the “bird’s eye” statistical perspective with the “worm’s eye” view from personal experience;
  3. look at the labels on the data we’re being given, and ask if we understand what’s really being described;
  4. look for comparisons and context, putting any claim into perspective
  5. look behind the statistics at where they came from—and what other data might have vanished into obscurity;
  6. ask who is missing from the data we’re being shown, and whether our conclusions might differ if they were included;
  7. ask tough questions about algorithms and the big datasets that drive them, recognizing that without intelligent openness they cannot be trusted;
  8. pay more attention to the bedrock of official statistics—and the sometimes heroic statisticians who protect it;
  9. look under the surface of any beautiful graph or chart;
  10. keep an open mind, asking how we might be mistaken, and whether the facts have changed.

Subjacent to all these guidelines, ONE “golden rule”: be curious. In my view, each of them is quite sensible, but not exactly groundbreaking.

The book starts decrying Darrell Huff’s “How to Lie with Statistics”. In an overreaction, Harford sees it as a disservice to the cause of data analysis. However, Huff states early in his 1954 book that “[s]tatistical methods and statistical terms are necessary in reporting the mass data of social and economic trends, business conditions, ‘opinion’ polls, the census.” As a consequence, I do not see why not take Huff’s approach at face value or, in his words: “[t]he crooks already know these tricks; honest men must learn them in self-defense.”

I found especially interesting Harford’s digressions about the perils of “motivated reasoning” and “naive realism”. Besides, as a recent reader, his remark on how a measure ceases to be a good one when it becomes a target could not be timelier given the recent decision of the World Bank to discontinue the “Doing Business Report”.

The book also reminds us all how we are drawn to surprising news, usually bad ones or mere flukes, also stressing the importance of remaining skeptical of both hype and hysteria, and emphasizing the properties of “intelligently open decisions” (i.e., information should be accessible and be usable, and decisions should be understandable and be assessable).

A good point is how standard statistical tests assume that all data have been gathered before being tested. If the data are gathered bit by bit and tested incrementally, these tests stop being valid. A correlated problem is the practice of hypothesizing after results known (or, simply, HARK). As an example of food for thought, the book states that it was possible to craft an algorithm that would either “give an equal rate of false positives for all races” or “where the risk ratings matched the risk of rearrest [in a business deal] for all races, but it wasn’t possible to do both at the same time”.

In spite of not endorsing it, the book presents a relevant argument on how risky it is to provide information to governments often regarded as incompetent. The implicit assumption that governmental statistics are not collected by the government, but for the government, deserves a more careful consideration.

Concluding, the author highlights, among others, the histories of Marin Mersenne (1588-1648), a monk and mathematician, and Andreas Georgiou, the former President of the Greek Statistical Authority. The first was essential to the development of science by stimulating open debate among disparate thinkers of his age, in stark contrast with the secrecy permeating alchemy by the same time. The second faces an unjust ordeal for doing his job, attacked by leftists, rightists and bureaucrats from his home country. In my own country, Brazil, I see a similar development on the coordinated effort to disrupt the work and the reputation of the former judge Sérgio Moro.

Note: first published on Goodreads > https://www.goodreads.com/review/show/3962558666.

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Casablanca e De Gaulle

Parei para rever “Casablanca” (1942). A primeira vez em muito tempo. Ainda um épico. Combinação perfeita entre paixão e renúncia. As mudanças sutis nos semblantes de Borgart e Bergman continuam inigualáveis.

Desta feita prestei atenção na cronologia. A história se passa em dezembro de 1941. Ou seja, necessariamente na primeira semana do mês, na véspera da entrada dos EUA na guerra.[1] Ainda que a França de Vichy não estivesse entre os alvos iniciais, julgo inconcebível que o Rick’s Café continuasse funcionando normalmente após Pearl Harbor. Pior, alegremente frequentado por oficiais nazistas.

Já pelo modo como os protagonistas se olham, seria fácil imaginar que não se viam há muito tempo. No entanto, Rick e Ilsa se separaram quando as tropas alemãs entraram em Paris, em 14 de junho de 1940. Assim, eles estavam separados há apenas dezoito meses. Foi nesse curto período que Rick conseguiu se instalar em Casablanca e se estabelecer como um dos mestres da vida noturna local. Coisas do cinema!

O mais interessante é a fala de Ugarte (Peter Lorre; vide foto) antes de ser preso:

_ Escute, Rick. Sabe o que é isto? Algo que nem você viu. Salvo-condutos assinados pelo General De Gaulle. Não podem ser rescindidos. Nem mesmo questionados.

Incrível! Como De Gaulle estava longe de ser uma figura bem quista pelo governo colaboracionista, um documento com a sua assinatura equivaleria, isto sim, a um ato de traição.

Na verdade, é até possível que os roteiristas soubessem exatamente quem era De Gaulle. Hipoteticamente, podem ter concluído que precisavam do nome de uma autoridade francesa com alguma ressonância entre o público americano. Considerando o baixo nível de informação do espectador típico, não seria descabido lhe atribuir uma autoridade sem qualquer respaldo na realidade. Intencional ou não, o próprio líder da França Livre pode ter dado boas risadas com esse anacronismo.


[1] O ataque contra Pearl Harbor se deu em 7 de dezembro de 1941. Os EUA declararam guerra ao Japão no dia seguinte. No dia 11, a Alemanha declarou guerra ao primeiro.

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On “Mister Invincible”

The comic book “Mister Invincible #1: Justice and Fresh Vegetables” is simply mind-blowing. The concept is so simple that borders on the obvious. Nevertheless, it remained, as far as I know, unexplored for eons and would still be, I guess, but for Mr. Jousselin’s geniality.

The conceptual simplicity, however, should not obscure the difficulty involved in its operationalization. A straightforward storyline is hard enough for most comic book writers. Concision, cadence and imagery are key. A “multilevel” plot, where out of order panels interacts with each other, should be an almost unsurmountable challenge, since each interaction should be carefully planned. Not surprisingly, most stories occupy only one page. Even the longer ones do not go beyond a few pages. Still, every pages is a little wonder.

In addition to the multi-panel interactions, the author adds three variants: the “reverse panel” interaction, the 2-D distortion and the gravity-bound speech bubble. All very simple to conceptualize, but extremely difficult to put into pratice. A truly inebriant tour de force.

Note: first published on Goodreads > https://www.goodreads.com/review/show/4169668129.

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Sapato Preto versus Sapato Vermelho

Descobri a comédia francesa “Loiro Alto do Sapato Preto” (“Le Grand Blond avec une Chaussure Noire”, 1972) apenas no ano passado. Além de muito divertida, o filme conta com a sensualíssima Mireille Darc (1938-2017). O filme teve uma continuação dois anos depois (“Le Retour du Grand Blond”), com cenas passadas no Rio de Janeiro.

Agora deparei-me com uma versão americana: “O Homem do Sapato Vermelho” (“The Man with One Red Shoe”, 1985). No lugar de Mlle. Darc e Pierre Richard, entraram Lori Singer, estrela de “Footloose”, e Tom Hanks, recém-saído dos sucessos “Splash” e a “Última Festa de Solteiro (“Bachelor Party”).

Um dos vestidos da personagem de Mireille Darc, concebido por Guy LaRoche, é tão famoso que, meio século depois, continua sendo mencionado como exemplo de roupa ultrassensual.

A personagem de Lori Singer usou um vestido semelhante, mas sem o mesmo impacto. De fato, no geral, por mais que curta os filmes de Tom Hanks, o original é incomparavelmente melhor.

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A “Trilogia da Cavalaria”

A “Trilogia da Cavalaria”, dirigida por John Huston e estrelada por John Wayne, está disponível na HBOMax. Para quem curte faroestes, vale a pena ver ou rever “Sangue de Heróis” (“Fort Apache”, 1948), “Legião Invencível” (“She Wore a Yellow Ribbon”, 1949) e “Rio Grande” (1950).

Especialmente curiosas são as pequenas homenagens à Confederação. Nem sei como ainda não colocaram uma advertência antes de cada filme. Talvez essa prática só seja aplicável ao mercado dos EUA.

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Sobre a “Paralisia Hiperativa”

Em 1994, o economista João Paulo dos Reis Velloso (1931-2019) coordenou a publicação da coletânea “Governabilidade, Sistema Político e Violência Urbana”. O cientista político Bolívar Lamounier contribuiu com o artigo “A Democracia Brasileira de 1985 à Década de 1990: A Síndrome da Paralisia Hiperativa”[1]. O conceito “paralisia hiperativa” representa um precedente de peso (e conceitualmente articulado) para uma blague que propus recentemente acerca do estado da política brasileira: a “letargia frenética”. Por sua relevância, decidi recuperar a passagem relevante para o entendimento do conceito original:

Desde o início da década de 1980, o Brasil tem vivido sob o que se pode chamar de paralisia hiperativa: uma síndrome de governabilidade em declínio, causada por um sentimento generalizado de insegurança entre as elites do país a respeito de sua coesão e legitimidade e agravada por uma tendência equivocada a querer solucionar o problema sobrecarregando constantemente a agenda política. Ao invés de esforçar-se em agregar interesses e propostas e negociar uma solução ampla, a elite política tem deito o contrário, isto é, tem trabalhado de maneira desagregada, exacerbando expectativas e sendo tragada a cada passo pelo mar de desapontamento que se abre a seus pés.

Embora, de maneira geral, sejam capazes de se entender quanto aos procedimentos, os políticos brasileiros claramente têm errado sistematicamente ao escolher um caminho substantivo muito desagregado. Desde a transição, em 1985, eles têm tentado recuperar a legitimidade multiplicando o número de questões submetidas a debate e decisão pública em meio a uma situação econômica e social cada vez mais adversa.

Nos últimos dez anos, em meio a uma situação econômica cada vez mais adversa, ficou claro que não havia nenhum partido, coalizão e nem mesmo grupo informal de líderes capaz de identificar as questões-chaves e estratificá-las numa agenda viável. Assim, a paralisia hiperativa transformou-se progressivamente numa espiral autônoma, cada fracasso alimentando-se de outro anterior. As origens mais profundas deste fenômeno encontram-se (…) na debilidade do sistema partidário brasileiro, na fragilidade da arquitetura institucional do país, e mesmo em alguns traços notavelmente utópicos de nossa emergente cultura política democrática.


[1] Também conta com uma versão em inglês: Latin America’s Critical Elections: Brazil at an Impasse.

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As “Leis do Kafka”

Alexandre Kafka

Em 1966, no livro “A Técnica e o Riso”, o economista Roberto Campos (1917-2001) publicou um conjunto de dez “leis” sobre o comportamento socioeconômico brasileiro e latino-americano. São regularidades observadas ao longo de vários anos em parceira com o também economista Alexandre Kafka (1917-2007). Inclusive, por essa razão, foram intituladas “Leis do Kafka”.

Em 2012, Gustavo Franco, ex-Presidente do Banco Central do Brasil e um dos mentores do Plano Real, na obra “As Leis Secretas da Economia”, transformou a ideia original em 74 regras oficiosas da economia política brasileira, tratadas em post anterior.

Das dez regularidades iniciais, Franco manteve apenas cinco: nº 1 (do comportamento discrepante), nº 7 (newtoniana da burocracia), nº 8 (da responsabilidade unilateral), nº 9 (da transferência de culpa) e nº 10 (da conservação do ente burocrático). As demais teriam se tornado anacrônicas.

Movido pela curiosidade, recuperei o rol original e o resumi no quadro a seguir. Com efeito, metade das regras ficou superada com a passagem do tempo. Ainda assim, no seu conjunto, as “Leis do Kafka” continuam divertidas e instigantes, reveladoras de limitações passadas e presentes da nossa economia política.

SEQ.REGRAENUNCIADO
1Lei do Comportamento DiscrepanteIndependentemente dos homens e de suas intenções, sempre que o Ministério da Fazenda se entrega à austeridade financeira, o Banco do Brasil escancara os cofres.
2Lei da Fuga ao ImpasseTodas as vezes que a escassez de divisas é absoluta, ameaçando-nos com a moratória ou a insolvência, alguma coisa favorável acontece no mercado do café.
3Lei do Limiar do MedoEnquanto a inflação não atinge 15% ao ano, não desperta alarme senão nos círculos técnicos; quando se situa entre 15 e 30%, agitam-se um pouco os Ministros de Finanças, há discursos no Congresso e surge uma ou outra greve; somente quando a alta de preços atinge 30% ao ano é que os governos acordam para a gravidade do problema.
4Lei do Movimento PendularOs governos latino-americanos oscilam entre extremos:
1ª versão. Primeiro promovem a industrialização em detrimento da agricultura; depois se dedicam à “salvação” desta quando descobrem que a produção de alimentos ameaça se tornar insuficiente e que a industrialização poderá parar pela falta de divisas.
2ª versão. Primeiro punem o exportador mediante o confisco cambial para subvencionar os importadores e os industriais; depois se dedicam a ressuscitar as exportações quando surgem dificuldades para importar matérias-primas e equipamentos.
5Lei da Constância dos DitadoresO número de ditadores na América Latina é constante; apenas a sua localização varia.
6Lei do Limite Geográfico da LógicaA lógica foi inventada pelos gregos no hemisfério norte; logo, não tem aplicação ao sul do equador.
7Lei Newtoniana da BurocraciaToda ação de liberação provoca uma reação de controle burocrático de igual intensidade, ainda que de forma disfarçada.
8Lei da Responsabilidade UnilateralGovernantes são solidários no desfrute dos méritos dos subordinados que escolhem, mas inocentes dos respectivos desacertos.
9Lei da Transferência de CulpaÉ menos importante encontrar soluções do que ter bodes expiatórios.
10Lei da Conservação do Ente Burocrático1º axioma. O ente burocrático é indestrutível: uma vez criada a entidade burocrática, esta, como a matéria de Lavoisier, jamais se destrói, apenas se transforma.
2º axioma. O instrumento é mais importante que os objetivos: se esta opção se colocasse, preferiríamos, p. ex., ter a Petrobras a ter petróleo, conquanto seja preferível ter ambos.
3º axioma. O fim serve aos meios: os institutos de previdência social, p. ex., não se destinam a dar assistência aos associados (conquanto o façam ocasionalmente distração), mas sim a assistir os seus próprios funcionários.

Segundo Franco, Campos ainda voltou ao tema em pelo menos mais duas oportunidades: a lei geral do protecionismo, de 1985, e a lei da vingança neoliberal, de 1997, contempladas no post já mencionado.

Campos concluiu a sua exposição com duas referências:

Perguntareis, irmãos, por que o trejeito irônico numa peça séria? A razão é que urge encarar de frente a vida, que não é doce, e por isso, como Machado de Assis, preferimos o caminho da ironia, que é o “pudor da razão diante da vida”.

Mas no íntimo confessamos, Kafka e eu, que a única lei que realmente gostaríamos de ter formulado é a do velho Josh Billings: “Por mais escasso que seja o suprimento da verdade, a sua oferta sempre excederá a procura.”

Ambas permanecem válidas mesmo após mais de meio século.

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Sobre a “Defasagem Bananal”

Autoria: Elias Freiberger & Xander Marritt.

Não pude deixar de dar uma gargalhada com a passagem a seguir do livro “As Leis Secretas da Economia“, de Gustavo Franco (2012), ao qual já me referi neste espaço:

… o conceito de defasagem cambial tem a atualidade e a relevância de um fusca 68. Mas, em 1996, foram muitos os que se irritaram comigo quando enunciei um raciocínio tão simples quanto venenoso a propósito da obsolescência dessa noção: o fato de o preço da banana cair em função de uma safra excepcional não quer dizer necessariamente que há uma ‘defasagem bananal’. Quantas vezes eu ouvi de tantos sábios a acaciana sabedoria envolvida na observação mal-humorada de que ‘câmbio não é banana’, sempre com vistas a explicar que a lei da oferta e da procura tinha sido revogada anos atrás pelos estruturalistas e heterodoxos.

Artigo de 1996 do falecido colunista Celso Pinto sobre como o estudo original foi recebido pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso permanece bastante atual, o que demonstra o quão pouco avançamos nessa seara. O estudo pode ser obtido via FTP.

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Desempenho Escolar e Resposta à Pandemia

Segundo a revista The Economist, as escolas de países com histórico de baixo (alto) desempenho permaneceram mais (menos) tempo fechadas em 2020 em decorrência da pandemia. Embora não conste do gráfico, é sabido que também o Brasil apresenta a pior combinação entre essas variáveis. Os fatores subjacentes a essa correlação negativa deveriam ser objeto de investigação criteriosa. A captura da política educacional por interesses corporativos, em detrimento dos educandos, é uma das possíveis explicações.

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As Leis Secretas da Economia: Referência Rápida

Em 2012, Gustavo Franco, ex-Presidente do Banco Central do Brasil e um dos mentores do Plano Real, publicou um divertido e elucidativo compêndio com 74 regras oficiosas da economia política brasileira.

Intitulado “As Leis Secretas da Economia: Revisitando Roberto Campos e as Leis do Kafka“, o livro expandiu um conjunto anterior de lições concebido por Campos (1917-2001), bête noire do nacional desenvolvimentismo brasileiro, e Alexandre Kafka (1917-2007), longevo representante do Brasil junto ao Fundo Monetário Internacional.

O quadro a seguir, sem ter a pretensão de substituir as considerações do autor sobre cada regra, oferece uma visão geral do código que baliza as ações das nossas autoridades.

SEQ.REGRAENUNCIADO
1Princípio da ConvergênciaO aplauso do mercado iguala todos os governantes.
2Princípio da Eficiência IlusóriaO futuro está no preço.
3Axioma de MalanO futuro tem por ofício ser incerto.
4Princípio da Igualdade na IgnomíniaNo mercado, os mais espertos ganham dos menos espertos, mas, como todos são espertos, eles se revezam nessas respectivas posições.
5Axioma de HouseO mundo se divide entre comprados e vendidos, que se revezam nessa posição, e todos mentem sobre a sua real condição.
6Lei do Mais ForteMoney talks (o dinheiro manda).
Parágrafo único. Todo conflito de interesse é sempre resolvido da mesma forma que o rio corre para o mar.
7Princípio da Refeição Gratuita InexistenteO “trouxa” já quebrou.
Parágrafo único. Notas de cem dólares encontradas na rua são sempre falsas.
8A Maldição dos SegurosSempre custa dinheiro livrar-se de riscos, pois quem os absorve sabe mais que você.
9A Maldição dos DerivativosLivrar-se de riscos complexos é como jogar na loteria.
101ª Lei do FundamentalismoSempre pode ficar pior.
112ª Lei do FundamentalismoO mercado pode ficar irracional mais tempo do que você consegue ficar solvente.
12A Maldição do Agente ou do Risco MoralTodo preposto, representante ou corretor que não colocar o capital dele junto com o seu, vai roubar você.
131º Princípio de KagemushaA Autoridade desfrutará de tanto mais credibilidade quanto maior o quociente entre o aparato retórico que a cerca e o efetivo movimento de suas políticas.
142º Princípio de KagemushaA Autoridade jamais deve descer da colina sem a certeza do resultado.
15Axioma da Inteligência a PosterioriQuanto mais a Autoridade explica, mais se arrisca. Ao falar, não falar. E quando a Autoridade for forçada a explicar, deve ser sintética, afirmativa e evasiva, como se entrevistada por jornalista japonês usando intérprete.
16Axioma de GreenspanQuando a Autoridade estiver sob grande pressão para fornecer explicações, deve ocultar-se sob seu aparato retórico. Com moderação e paciência, deve recorrer a pequenos enigmas da teoria, a fim de cansar o interlocutor e dar a impressão de apego ao detalhe.
173ª Lei do FundamentalismoA Autoridade fala mesmo através de suas ações.
18Teorema das Matérias ProibidasEm nenhuma hipótese a Autoridade deve: pronunciar as palavras “pânico”, “crise” ou “congelamento” e respectivos sinônimos;fazer qualquer espécie de desmentido;admitir que está estudando qualquer assunto ou medida.
194ª Lei do FundamentalismoToda medida envergonhada ou incompleta, ou cujo sentido e intensidade dependam de regulamentação posterior, está fadada ao fracasso.
20Princípio de Forrest GumpA Autoridade deve fazer programas de apoio a tudo o que estiver dando certo e ignorar ou ocultar o que estiver dando errado, a fim de fazer parecer com que todos os progressos da economia, inclusive os espontâneos, sejam resultados de suas políticas.
21Lei de PivaQualquer que seja a taxa de juros, qualquer que tenha sido a decisão do Copom, os juros estão sempre excessivos, a queda sempre poderia ter sido muito maior e a elevação, desnecessária.
22Teorema do Recado PalacianoA todo aumento de juro corresponderá uma notícia de jornal sobre o descontentamento presidencial e eventual demissão dos responsáveis.
23Teorema da História LentaA criação ou mudança de instituições destinadas a proteger o interesse geral em detrimento de interesses particulares, sobretudo as referentes à saúde da moeda, serão sempre procrastinadas até que sejam inevitáveis.
23.1Corolário de ChurchillParágrafo único. O Brasil encontrará o caminho virtuoso, mas não sem antes experimentar todos os outros.
24Teorema do EsquimóO número de palavras incompreensíveis em “economês”, de índices de inflação e de pessoas envolvidas com o assunto é proporcional ao quadrado do índice de inflação.
25A Maldição dos ÍndicesToda vez que, com má intenção, uma Autoridade escolher um índice de inflação como meta, ou como índice oficial, este será o que mais vai subir.
26Lei de Leonel Brizola ou do Boi VoadorO pessimismo não tem custo, é muito bem remunerado e não prescreve.
27Lei Única da Regulamentação Bancária PrudencialA prudência e a diligência do banco são proporcionais à soma da responsabilidade do acionista controlador com o quadrado da responsabilidade do administrador.
28Princípio da Solidão NecessáriaMesmo sabendo que quanto mais opiniões a Autoridade ouve melhores são suas decisões, a Autoridade não vai ouvir ninguém, pois precisa reduzir a zero as chances de um processo.
Parágrafo único. O mensageiro nunca está inocente: a Autoridade jamais vai ouvir uma avaliação isenta do que quer que seja.
29Lei de Mauch [1] (1ª Lei das Fusões Bancárias)Duas prostitutas não fazem uma donzela.
302ª Lei das Fusões BancáriasEm toda fusão de banco apoiada pelo Banco Central ao menos um dos nubentes está quebrado.
31Princípio do Jus SperniandiO esperneio é proporcional ao tamanho da picareta.
32Lei de Mauch [2]Não há fantasmas vagando sobre a Terra, ou laranjas brotando em árvores, que a diretoria do banco não conheça.
33Lei de Mauch [3]Muda a porcaria, mas as moscas são sempre as mesmas.
34Teorema do Gelo FinoToda tramoia denunciada pelo Banco Central aos órgãos de controle do setor público resultará em procedimento administrativo ou judicial contra os denunciantes.
35Lei do Kafka nº 10 (Da Conservação do Ente Burocrático)O ente burocrático é indestrutível, ou o instrumento é mais importante do que os objetivos, ou o fim serve aos meios.
Parágrafo único. Toda vez que dois órgãos públicos precisarem examinar o mesmo processo em separado, nenhuma decisão será tomada. E quando se tornar imperativa uma decisão consensual e negociada, ela terá o condão de manter tudo exatamente como sempre foi.
36Lei do Kafka nº 8 (Da Responsabilidade Unilateral)A Autoridade é solidária no desfrute dos méritos dos subordinados que escolhe, mas completamente inocente dos respectivos desacertos. O burocrata bem-sucedido é incapaz de um ato de heroísmo ou de criatividade.
37Lei do Kafka nº 9 (Da Transferência de Culpa)É menos importante encontrar soluções do que ter bodes expiatórios.
38Princípio do Afastamento da ResponsabilidadeQuem decide sobre questões espinhosas ou “maldades” é sempre o funcionário menos graduado, geralmente autor de uma “nota técnica”.
39Axioma da MagnanimidadeAs Autoridades sempre escolhem a alternativa intermediária.
39.1Princípio da Relatividade BurocráticaParágrafo único. A fim de induzir a escolha da Autoridade, torne a alternativa mais radical, e desejável, a intermediária entre uma moderada demais e outra absurda.
40Lei de CoelhoNada se inventa, tudo se copia de pacotes anteriores.
Parágrafo único. Todo programa de governo é sempre cópia de outro anterior, e já está no orçamento.
41Axioma da AutoriaAs Autoridades, em geral, só acolhem as ideias que são delas mesmas, ou as que lhes pertençam por doação sem contrapartida.
421ª Lei da CapitalJabuti não sobe em árvore. Ou foi gente ou foi enchente.
42.1Teorema do Contrabando LegislativoParágrafo único. Quando alguém propõe dispositivo consolidador, aparentemente ocioso, apenas para dirimir dúvida de interpretação, é porque pretende resolver problemas dos quais não se pode falar.
432ª Lei da Capital, de Delfim NettoNão se vai a Brasília a passeio, ou para elogios.
44Princípio do AutoenganoToda vez que as Autoridades se reúnem e concordam que o governo tem um problema de comunicação é porque os rumos da política econômica devem ser seriamente repensados.
55Lei de Bismarck ou Paradoxo da InvisibilidadeO processo decisório deve ser invisível, mas o anúncio precisa ser transparente e destituído de qualquer ambiguidade, vedada qualquer forma de improviso.
Parágrafo único. Reuniões sobre coisas decididas mas com minorias insatisfeitas não devem acontecer.
46Lei do CMN 1 (O Agrado Obrigatório ao Governador)46. Em toda reunião do CMN sempre haverá um voto para estender prazos, em geral de dívidas com o Erário, com a ressalva obrigatória de que será a última vez, conforme constava do adiamento anterior.
47Lei do CMN 2 (O Agrado Obrigatório à Agricultura)Em toda reunião do CMN sempre haverá um voto sobre matéria agrícola, acarretando grande ônus para o Erário, trazido de surpresa e “extrapauta”: na agricultura só se trabalha com produto fresco.
48Princípio da Perversidade dos Pactos SociaisToda negociação com agenda definida apenas pelos atores que se apresentam para conversar, ao alcançar decisões consensuais com impactos econômicos relevantes, gerará benefício para os participantes em detrimento de quem ficou de fora.
49Teorema de Hemingway-GorbachevTodo governante reformador está condenado, com o tempo, a um desgaste progressivo e irreversível: acumulará como inimigos um número crescente de minorias ressentidas e não terá a gratidão das maiorias beneficiadas, as quais serão incapazes de perceber que a melhoria em seu padrão de vida se deve aos reformistas.
50Lei do CãoO dinheiro da Viúva não tem dono.
51Princípio da Equivalência RicardianaNão existe gasto público sem imposto ou calote, ontem, hoje ou amanhã.
52Lei Geral do ContingenciamentoO Orçamento Geral da União conterá todas as aspirações nacionais, mas como as possibilidades são muito limitadas, o secretário do Tesouro, ouvido o presidente, vai liberar dinheiro seletivamente, a fim de realizar os sonhos da nação que a conveniência política indicar.
53Lei de SayadO déficit público é uma constante da natureza: qualquer economia gera gasto, qualquer gasto extraordinário gera pacote tributário.
54Lei JateneAo se propor aumento ou criação de imposto, jamais discutir o mérito das questões tributárias; apenas e tão somente o que fazer com o dinheiro arrecadado.
55Lei de GiambiagiRegras limitadoras à conduta fiscal dos governantes são sempre inúteis. Quando os governantes têm boa-fé, as regras são desnecessárias; quando não têm, são sempre contornadas.
56Lei do Kafka nº 1 (Comportamento Discrepante)Independentemente dos homens e de suas intenções, sempre que o Ministério da Fazenda se entrega à austeridade financeira o Banco do Brasil (ou o Ministério do Planejamento ou o BNDES) escancara os cofres, e vice-versa.
57Lei Básica do Banco PúblicoA função social do banco público é emprestar, nunca cobrar.
58Princípio das Lágrimas do PrivilégioAs privatizações que trazem mais benefícios ao interesse público são as que envolvem mais gás lacrimogêneo.
59Princípio da Maldição do Vencedor (Versão Brasileira)O leilão conserta tudo.
60Lei de Caldeira-Furtado (Princípio da Socialização das Perdas)O governo é o responsável por tudo que dá errado no país, e também por tudo o que funciona, de modo que sempre deve indenizar os perdedores, cujos fracassos empresariais apenas ocorrem em razão de erros e omissões das políticas públicas.
61Princípio Básico da Perversidade das FederaçõesNuma federação, o comportamento virtuoso não faz sentido, pois o tratamento a ser recebido pelo governo federal será o mesmo dado ao estado que fez tudo o mais errado.
Parágrafo único. Qualquer benefício ou liberalidade concedidos a um estado da federação, por mais merecidos, jamais deixarão de ser generalizados a todos os outros, inclusive os que não merecem.
62Lei do Kafka extra (A Vingança Neoliberal)Com a possível exceção da França, todo país onde existem escolas de pensamento econômico alternativo com alguma expressão é subdesenvolvido.
63Lei do Kafka nº 7 (Newtoniana da Burocracia)Toda ação no sentido de liberalização provoca uma reação de controle burocrático, de igual intensidade, embora de forma disfarçada.
64Lei de Sauer-SetubalQualquer que seja a taxa de câmbio, ela estará sempre defasada em 30%.
652ª Lei de Sauer-SetubalSempre que a Autoridade mudar a metodologia de cálculo da taxa de câmbio real, ou se empenhar em demonstrar que não existe “defasagem cambial”, os 30% regulamentares terão sido ultrapassados por larga margem.
663ª Lei de Sauer-Setubal ou Variante de José SerraQuando a defasagem cambial regulamentar for o resultado do livre jogo das forças de mercado, será designada como “populismo cambial”, sobretudo se ocorrer na ausência de agrados compensatórios.
67Lei Geral das Tarifas PúblicasQuaisquer que sejam os preços da gasolina, da eletricidade e de outros serviços públicos, os investimentos fundamentais para a expansão e melhoria dos serviços somente poderão ocorrer na presença de um reajuste de 30%, ou se o prejuízo decorrente da ausência do referido reajuste for transformado em dívida do Tesouro.
68Lei do Kafka nº 11 (Lei Geral do Protecionismo)A eficiência competitiva está na razão inversa do grau de intervenção governamental.
69Maldição de Mark TwainA única chance de acerto de políticas industriais focadas na escolha de campeões consiste em apoiar quem não tem a menor necessidade de ajuda.
70Maldição das MultinacionaisTodo esforço de substituição de importações e de nacionalização de componentes, quaisquer que sejam o formato e a intensidade, vai resultar em mais desnacionalização da indústria nacional.
71Princípio da Escolha de Sofia ou Dilema de TriffinÉ vedado à Autoridade fixar, simultaneamente, o câmbio e o juro, exceto quando na ausência de déficit público.
72Teorema da Beligerância EncenadaAs medidas de restrição às entradas de capital especulativo e covarde serão tanto mais eficazes quanto mais agressivas e instáveis se mostrarem as Autoridades.
73Tautologia de SimonsenA inflação machuca (aleija), mas o balanço de pagamentos mata.
74Lei Geral da Intervenção no CâmbioA intervenção bem-sucedida em mercados de câmbio: deverá ser conduzida idealmente por Autoridades que não acreditam na eficácia desse tipo de ação;tem mais chances de funcionar quando permanece no terreno da ameaça;deve compreender ações que, a priori, podem ser mantidas por tempo indeterminado; e, sobretudo,(iv) não deve trazer nenhum compromisso quanto a seus resultados.
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